Sinto falta de outra fêmea dentro de casa.
Meu perfume sente falta de outro odor singelo, pode ser colônia
barata ou até aquele francês que paga minha conta de luz e água. Não sei não enlear
minhas ideias com outras, dá uma dó só de me olhar no espelho e não ter batom
espalhado na pia ou minha escova usada por outra na correria matutina, filha de
uma noite sem escala.
Hoje ninguém vai servir tédio para o café da manhã.
Enrolo as sacolas plásticas de um jeito inútil para a
humanidade. Desço a escadaria sem aquela pressa de voltar antes de uma sonsa saudade.
Na rua, tem gente doente de tudo, precisada de uma lucidez que só a solidão e
uma boa refletida pós-algo pode oferecer.
Tem gente com ódio de mim, tem gente que vai quase atropelar
só por prazer, tem gente que esqueceu a alma em algum lugar. Recuperar é
difícil, pois necessita se doer e se comer; e uma baita onda de covardes não se
podem no estômago.
Gosto das esquinas em par. Tenho a visão dos caminhos de um
jeito precoce, posso ver quantos acidentes humanos quiser, basta girar o olhar,
girar a cabeça frágil.
Subo a escadaria, vejo um rato vivo batendo na porta de emergência,
falando baixo e ameaçando alguém por ser mais feliz.
A cadeira da varanda ainda está quebrada, talvez amanhã eu
pregue a perna detrás. Da luz que vem do prédio da frente, uma agonia acompanha
minha ideia de salto. Parece tão macio, só os fios que podem atrapalhar um
bocado.
Esvazio o copo de uísque com um gole gregoriano. Assento um
suspiro na visão da varanda ao lado.
Os braços firmes na grade e posso ver o arrepio provocado
pelo corredor chato de brisa que sempre apaga minha vela da sexta-feira. Chego
mais perto, os braços limpos de cicatrizes, tão diferente dos meus, tão bom de
olhar. Estendo a mão.
Não sei quem é minha vizinha do lado, graças ao tempo com
cheio de fumaça e a rotina da cidade crocodilo.
Ela abre a mão, aceita meu gesto anônimo.
Ficamos ali uns quinze minutos, eu e uma desconhecida,
apreciando o som das buzinas irritadas, os gritos dos meninos que perderam uma
pedrinha, as moças que caminham com medo... Ficamos ali, amando um pouco sua
mão macia na minha mão firme.
Os olhos devem ser rasos e com o brilho do cair da tarde a metrópole
toda refletida em sua retina. Eu aqui, toda turva, curva para algum deslize e
morte.
Sinto uma puta falta de outra fêmea em casa, não faço mais
poesia fico nessa coisa de escapar palavras de monte. Mas estou bem, todo cair
de tarde vou lá, agarrar aquela mão boa que me faz não saltar no escândalo
de podridão que rola lá embaixo.
Nem falta faz, na verdade.
By Camila Passatuto