sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Relato do Cotidiano

Sinto falta de outra fêmea dentro de casa.

Meu perfume sente falta de outro odor singelo, pode ser colônia barata ou até aquele francês que paga minha conta de luz e água. Não sei não enlear minhas ideias com outras, dá uma dó só de me olhar no espelho e não ter batom espalhado na pia ou minha escova usada por outra na correria matutina, filha de uma noite sem escala.

Hoje ninguém vai servir tédio para o café da manhã.

Enrolo as sacolas plásticas de um jeito inútil para a humanidade. Desço a escadaria sem aquela pressa de voltar antes de uma sonsa saudade. Na rua, tem gente doente de tudo, precisada de uma lucidez que só a solidão e uma boa refletida pós-algo pode oferecer.

Tem gente com ódio de mim, tem gente que vai quase atropelar só por prazer, tem gente que esqueceu a alma em algum lugar. Recuperar é difícil, pois necessita se doer e se comer; e uma baita onda de covardes não se podem no estômago.

Gosto das esquinas em par. Tenho a visão dos caminhos de um jeito precoce, posso ver quantos acidentes humanos quiser, basta girar o olhar, girar a cabeça frágil.

Subo a escadaria, vejo um rato vivo batendo na porta de emergência, falando baixo e ameaçando alguém por ser mais feliz.

A cadeira da varanda ainda está quebrada, talvez amanhã eu pregue a perna detrás. Da luz que vem do prédio da frente, uma agonia acompanha minha ideia de salto. Parece tão macio, só os fios que podem atrapalhar um bocado.

Esvazio o copo de uísque com um gole gregoriano. Assento um suspiro na visão da varanda ao lado.
Os braços firmes na grade e posso ver o arrepio provocado pelo corredor chato de brisa que sempre apaga minha vela da sexta-feira. Chego mais perto, os braços limpos de cicatrizes, tão diferente dos meus, tão bom de olhar. Estendo a mão.

Não sei quem é minha vizinha do lado, graças ao tempo com cheio de fumaça e a rotina da cidade crocodilo.

Ela abre a mão, aceita meu gesto anônimo.

Ficamos ali uns quinze minutos, eu e uma desconhecida, apreciando o som das buzinas irritadas, os gritos dos meninos que perderam uma pedrinha, as moças que caminham com medo... Ficamos ali, amando um pouco sua mão macia na minha mão firme.

Os olhos devem ser rasos e com o brilho do cair da tarde a metrópole toda refletida em sua retina. Eu aqui, toda turva, curva para algum deslize e morte.

Sinto uma puta falta de outra fêmea em casa, não faço mais poesia fico nessa coisa de escapar palavras de monte. Mas estou bem, todo cair de tarde vou lá, agarrar aquela mão boa que me faz não saltar no escândalo de podridão que rola lá embaixo.

Nem falta faz, na verdade.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Num canto pequeno da casa grande

E se eu enlouquecer de uma hora pra outra?
Você sabe que tenho mil vias escuras cá por dentro da cabeça rachada. Não tomo os remédios para o tédio, para o vazio, para a insônia, para o éter que sai do ouvido direito, para esse sentir fundo que me quebra os dentes toda vez que ouso expressar.
Tenho andado pior. Quase te quebrei a cara por causa de "sabe lá porquê". Esqueço se gozei ou não, as gavetas ficam por fechar, a torneira já transbordou os pratos do almoço. E eu lá, sentada na beira do muro, suplicando por um dia menos pesado.
Você tenta capturar o meu animal faminto e acaba com um pedaço da minha língua no chão.
E se eu perder a razão por completo, não saber de mais nada nesse tudo de coisa?
Arremesse minha alma/poesia para as meninas sem asas.
Assim, de largo ser, serei avoar plano para quem me quiser poeta de ar.
Amor.

By Camila Passatuto

Gelo

Estou no momento em que a poesia pede outro formato, ela quer espaço. Cenas, parágrafos! Versos que se espalham e me espancam nas certezas do poema.
Ela é cruel, pior que amor mal sovado.
Então, venha com os seus queres de ser e me usa como cavalo, embora eu não passe de uma cadela no cio.

By Camila Passatuto

Flanela na Glote?

Confundia o trânsito, não ia e nem dava o corpo para atropelar.
O bom é quando as luzes artificiais começam a borrar a pintura de São Paulo, meu astigmatismo faz tudo ficar um pouco Van Gogh.
Cheiro de leve. Tem polícia de cara feia, sabem que além de tudo eu fodo em linhas estreitas. É poesia, ninguém entende. Mas vou juntar tudo e editar um livro póstumo.
Não pode pular a ponte. Vai estragar o fluxo!
Tem polícia de cara feia, sabem que mostro os seios enquanto recito no braço esquerdo do viaduto.
Limítrofe que sou, não me adentro. Corro entre os carros. Uma coroa me olhou zangada, devo ter borrado o lápis.
Não saio da faixa amarela, nem me atiro para baixo do ônibus. Gosto das buzinas que me conduzem a uma dança urbanóide.
É que hoje o corpo quis causar. Estou confusa entre a ponte e o fiat 147...
- Na dúvida, peço uma garrafa, sento no ar e faço da queda o meu saudoso e estatelado bar. -

By Camila Passatuto

Só Para Revidar

Sinto o gosto dela toda vez que lembro.
Ela odiava sentir o calor do asfalto na sola do pé, eu... bem, quase sem querer, saia galopando entre a pouca calçada e a vasta rua. E me desnudava em risos.
Joga o chinelo mais longe! Com a maldade que me era nativa, observava a bela do meio-dia pular até o outro lado da rua, a tostar os pés alvos, calvos de calos.
Suas mãos me alcançavam fácil, eu era toda cansaço.
Ainda sinto seu gosto entre minhas pernas, do outro lado do muro, onde nenhuma vírgula - ou meio-fio - podia nos separar.
Com o tempo ela virou bolhas de saudade em meus pés frios, pus na boca, casquinha de ferida que não posso mais coçar.
Sinto o gosto dela toda vez que lembro e me descalço em dias quentes.
Só para revidar.

By Camila Passatuto

Todo dia morre uma

Não há o que comemorar.
Os confetes mofaram dentro dos meus bolsos, os lábios colaram e a tez rachou com o tempo seco.
Enterram todas em uma vala vaginal. Gargalharam. Estão todas de mãos dadas com flores a cobrir os ventres. (Você riu?).
Ainda estou com o carnaval atrasado, sozinha na rua turva, sem entender como algemaram meus tornozelos.
E a morte?
A guerra leva, mas brota flor-menina.
Resista.

By Camila Passatuto

Coronel Zumbi

Tudo deve caminhar. O fluxo te jorra e mesmo sem saber a direção eles repetem sem o cansar da língua: "Siga, vença, minta".
Tudo deve se aprontar até o ponto previsto. Tem relógio na parede do banheiro e eu não sei qual a melhor hora, não sei mesmo.
O exército atravessa minha varanda, as botas pisam meu estômago. Eles gritam: "Siga, vença, minta".
Tiro um punhado de lixo da mochila, não tem cigarro. Olho por cima dos óculos, tem alguém me chamando.
- Quando vão entender que estou travada, comendo pouco, não seguindo a massa e na poesia é que apoio e tombo a vida?
Colocaram as máquinas no andar de cima, mal posso respirar. Tem um pescador apressando o mar e encaixaram minha cabeça no processo de ignição do escritório.
- Agora ela se faz útil.
Tudo deve caminhar. Minhas pernas estão no armário da copa, caso precise comprar parafusos.
- E minha alma fugiu, travada e livre. Banhada por algum bom motivo... Travada e livre. -
"Siga, vença, minta"
Não. Até o último giro do corpo objeto.
(Após recusar o óbvio, levou três tiros no peito magro).

By Camila Passatuto

Sozinha em Casa

Tropeço no que é humano e sempre acabo nesse chão gelado que faz arrepiar o animal em mim.
Falhas necessárias.
Depois de beijá-la intensamente, limpo o suor entre os seios, observo as estrias nos prédios e lanço um soluço de tédio.
Sempre assim. Tropeço no carpete velho da sala e rolo sem direção para o banheiro, a banheira ainda está cheia.
Se me afogo, a vida fala: Falha, menina, necessária.

By Camila Passatuto

Muerta

Sinto o cheiro da morte o tempo todo. Ela se envolve, me escova as costas, gosta do olhar bêbado e salta para outra calçada; abre o portão - entra - e se inunda de Eu entre os dedos.
Todo dia acordo, abro a janela e dou bom dia para a vizinha da frente.

By Camila Passatuto

Relógio Que Escorre

Se pudesse escolher, eu ficaria no segundo que antecede todas as ações. No luto - estranho - do que está por vir.
Ficaria na quebra de ritmo que dou à poesia elástica, na língua quente-travada do que lê e se mata.
Depois de cansar. Eu, precoce, seria apenas suor do que já foi, filha impecável do ponto final.
Sem meios.

By Camila Passatuto

Mulher com Sexo

Quando se é mulher o sexo vira seu inimigo número um em algumas situações.
Até hoje a sociedade atribui o bem estar sexual da mulher com algo sujo e um tabu que não podemos sair falando por aí.
Gosto de sexo, muito. Por mim, faria umas 6 vezes por semana, fora as masturbações. Mas minha namorada me freia.
Não, não sou puta, vagabunda, vadia ou seja lá o que pensa a conservadora e machista sociedade.
Algumas pessoas falam que "minha cabeça é de homem", para justificar minha realidade tranquila com o sexo.
Interessante, pois até quando uma mulher vem e mostra que é normal ter uma vida sexual ativex, que pensar em sexo com frequência não é algo de outro mundo, que mulher não é submissa, passiva, medrosa e que buscamos, com certo egoísmo, nosso prazer, até nessas situações, eles buscam a masculinização da mulher. Pois só homem tem que "amar sem culpa".
Cara, tenho alma de mulher, mente de mulher, corpo de mulher... o que não tenho na minha vida é sexo como tabu.
Vão gozar, pessoas.


By Camila Passatuto

Gavetas

Encontrar poemas perdidos em arquivos aleatórios.
Não me conheço tanto assim, que bom. Até parece que é outra que escreve por mim, me leio inédita.

By Camila Passatuto

Dos Poderes

Podemos uma vida inteira, mesmo se em algum pulo eles capturarem parte da nossa esperança. Podemos vidas inteiras, em poucos olhares. Basta gravar com éter uma obra em almas.

By Camila Passatuto

Corpo

Quando adquirimos a consciência política e poética sobre o nosso corpo, as coisas mudam, o mundo muda, as pessoas ao redor são convidadas a mudar. Quando conseguimos ver que somos por inteiro (ou podemos ser) uma representação e um ato de revolução, arte e desconforto; nossos projetos ganham formas, nossa luta faz sentido e toda a confusão se canaliza.

By Camila Passatuto

Poesia de Mulher

Poesia feita por mulher já é de cara combativa.
Não verso branco, sim pura rima.
Não musa morta, sim lira viva.
Não poema, sim (em tudo) poesia.

By Camila Passatuto

Do que gostar?

Gosto do desapropriar, já que nunca sei (ou desejo ter) minhas reais propriedades. 
Então, farelo a vida o quanto posso e sigo leve.

By Camila Passatuto

Boteco

Querer e poder desafinar. E se te romper os tiros, no balcão de uma lanchonete, dançar conforme a morte.
Ceder quando a hora for lutar... Por querer, por descaso. Rebeldia de moça pouca, de louca minha.
(Despedida).

By Camila Passatuto

Poucos

Poucos os saltos que se compassam à beira de uma virgem-vírgula... (fecha) loucos os saltos que a ela me permitem a subordinação tratada... poucos.

By Camila Passatuto