Não se preocupe comigo. Não
só de versos vive quem versa... Quase dois meses sem poder o que todos pensam
que posso. Ah, mas olhe o que colecionei nesse tempo; espadas inglesas,
charutos cubanos, meninas moinhos e garotos escarlates.
Algumas ligações entre goles
de cerveja alemã, quadros a limitar tintas e mentes a limiar verbos. E imagine
as possibilidades que rondaram que beijaram e por vil vontade dos deuses que
nunca vi, não penetraram os papéis, não emocionaram as viúvas, não acalantaram
as crianças, não tombaram os embriagados, não mataram filhos de qualquer
legislativo...
Renuncio todo e qualquer esforço
para o artificialismo da virgem cultura que não quer partir dos dedos que
prescrevem o pecado do ser. Chego a pensar, oh Deus dos cordeiros, serei adorno
pecaminoso por criar e salvar almas, apenas dedilhando nessa máquina escura a
qual me curvo para apreciar o som de suas tortas teclas.
Não se preocupe comigo. Não
só de cria vive o criador... E os rescaldos de nosso mundo - mesquinho e sempre
respirando na escala de produção - deforma meu rosto, minha estadia em mim, a
distimia que sou e a constância que me acalma... Oh, inferno moderno, dos
relógios, dos tempos, do pouco, da imparcialidade, dos falsos pensadores, dos
rápidos filósofos, das putas enjoadas, dos ferros sem força... Ah, mundo... Não
se deforme comigo e com os meus alguma-coisa; é que pensamos devagar, que amamos
devagar, que somos devagar... Temos morte lenta no íntimo de quem nos permite
ser eterno escólio ou improviso de falar.
Não se preocupe comigo. Caso
não apareça mais com meus verbos, caso não emocione mais com meus textos, caso
o acaso me leve como dente-de-leão pelo vento; estarei pensamento pairando
sobre quem bem quiser fazer o que sempre amei...
Estarei verso, meu filho.
Camila Passatuto