domingo, 23 de setembro de 2012

Carta aos meus,


Não se preocupe comigo. Não só de versos vive quem versa... Quase dois meses sem poder o que todos pensam que posso. Ah, mas olhe o que colecionei nesse tempo; espadas inglesas, charutos cubanos, meninas moinhos e garotos escarlates.
Algumas ligações entre goles de cerveja alemã, quadros a limitar tintas e mentes a limiar verbos. E imagine as possibilidades que rondaram que beijaram e por vil vontade dos deuses que nunca vi, não penetraram os papéis, não emocionaram as viúvas, não acalantaram as crianças, não tombaram os embriagados, não mataram filhos de qualquer legislativo...

Renuncio todo e qualquer esforço para o artificialismo da virgem cultura que não quer partir dos dedos que prescrevem o pecado do ser. Chego a pensar, oh Deus dos cordeiros, serei adorno pecaminoso por criar e salvar almas, apenas dedilhando nessa máquina escura a qual me curvo para apreciar o som de suas tortas teclas.

Não se preocupe comigo. Não só de cria vive o criador... E os rescaldos de nosso mundo - mesquinho e sempre respirando na escala de produção - deforma meu rosto, minha estadia em mim, a distimia que sou e a constância que me acalma... Oh, inferno moderno, dos relógios, dos tempos, do pouco, da imparcialidade, dos falsos pensadores, dos rápidos filósofos, das putas enjoadas, dos ferros sem força... Ah, mundo... Não se deforme comigo e com os meus alguma-coisa; é que pensamos devagar, que amamos devagar, que somos devagar... Temos morte lenta no íntimo de quem nos permite ser eterno escólio ou improviso de falar.

Não se preocupe comigo. Caso não apareça mais com meus verbos, caso não emocione mais com meus textos, caso o acaso me leve como dente-de-leão pelo vento; estarei pensamento pairando sobre quem bem quiser fazer o que sempre amei...
Estarei verso, meu filho.

Camila Passatuto