sexta-feira, 11 de março de 2016

Língua Social

A linguagem também distancia, cria e expõe barreiras sociais.
Nem sempre a poesia é para todos. Poesia também excluí. Algumas pessoas, ou a maioria delas, não vão entender minhas referências. Não adianta, a linguagem vai, cedo ou tarde, jogar na cara de alguém o quanto é mesquinha e compromissada com os arreios de um ego massacrado em deslize de pedreira.
Quando leio meus poemas, quando grito meus textos pela janela, reconheço o papel social da escrita. Observo. Eu me dei bem, sei ler, sei bolar bem (n)o papel - apesar de toda dislexia - mas nada disso resolve... Não é culpa do poeta, do autor, todo o descaso com a educação .A indústria criada para matar escritores, editoras, leitores... Não é culpa minha, cara!
Só sei que tenho, nas entrelinhas, nos lábios soltos, no corpo fácil de se expressar, um maquinário acessível. Sim, os que não irão compreender o poema, irão beber na fonte.
Tempo atrás, pensei que se escrevesse prosa minha escrita se tornaria livre de barreiras.
Não adianta, a linguagem, cedo ou tarde, joga na nossa tela o quanto ainda temos que lutar para a conquista real de uma igualdade.
Sim. Vou decapitar o quanto posso, mas dói ter consciência que nem todos possuem o direito de me recolher entre os olhos e se afogar no entendimento louco que é a equação entre linguagem e poesia.
Acho que a necessidade escaldante de interromper a respiração no meio de uma avenida, tropeçar e deixar o sangue escorrer, andar de forma abstrata, olhar e devorar os pontos e esquinas, ressuscitar ameaças em mesas de bar, andar pela borda do viaduto, sorrir com descaso, mentir sem controle, beber no estopim da guerra, ferir o ouro, vender a honra... Acho que a necessidade de viver do avesso vem do querer encenar poesia para os que não podem mastigar o papel, aí dou minha pele.
A gente faz poesia no berro. Sabe?
Na resistência densa das beiradas.
É assim.

By Camila Passatuto

Nenhum comentário: